F for Fake

A arte da falsificação: único meio de se tornar original, hoje em dia!

Sexta-feira, Março 24, 2006

Achei!

Escrevo isto em casa, já se vê, depois de ter dormido não mais que quatro horas, e como me parece necessário, ou útil, ou pelo menos não prejudicial, nem sequer para mim, decido continuar a escrever, talvez a minha vida, a passada e esta de agora, talvez a vida, porque dela me parece mais fácil falar do que da minha própria. Na verdade, como vou eu recuperardo passado tantos anos já, e não apenas meus porque estão misturados com os de outras gente, e mexer nestes meus é desarrumar os que não me pertencem hoje nem me pertenceram nunca, por mais que mansamente ou brutalmente os invadisse em cada momento que pôde ser comum ou assim tomado? Provavelmente, nenhuma vida pode ser contada, porque a vida são páginas de livro sobrepostas ou camadas de tinta que abertas ou descascadas para leitura e visão logo se desfazem em poeira, logo apodrecem: falta-lhes a invisível força que as ligava, o seu próprio peso, a sua aglutinação, a sua continuidade. A vida são também minutos que não podem desligar-se uns dos outros, e o tempo será uma massa pastosa, densa e obscura, no interior da qual nadamos dificilmente, tendo por cima de nós uma claridade indecifrada que devagar se vai apagando, como um dia que, tendo amanhecido, à noite de que saiu regressasse. Estas coisas que escrevo, se alguma vez as li antes, estarei agora imitando-as, mas não é de propósito que o faço. Se nunca as li, estou inventando, e se pelo contrário li, então é porque as aprendera e tenho o direito de me servir delas como se minhas fosse e inventadas agora mesmo.

-- Saramago.