Cyrano disse: "vão pra pqp!"
Juro que tentei. Juro. Fiz o fichamento todinho sem xingar ninguém. Mas no final não deu mais pra segurar:
A relativização seria "uma atitude epistêmica, eminentemente antropológica", na qual "o pesquisador", segundo Cardoso, "logra escapar do etnocentrismo" -- idéia que a afirmação imediatamente anterior, a respeito de uma "eminência", já
é suficiente para derrubar. E ainda por cima cita esse tal Crapanzano, que diz que escrever etnografia é uma "continuação do confronto intercultural". Ou seja, o cara pensa que por ser dotado da mais bela sensilibidade, alcançável através de sua longa disciplina e suas mui avançadas e exclusivas discussões e reflexões, ou seja, através de uma "cultura" acessível apenas aos iniciados mais ilustres, que por isso ele consegue ir para um lugar, colocar a cultura desse lugar dentro da cabeça e, de volta ao seu gabinete, ao seu lar, de volta à cadeira que se adequou ao formato de sua bunda, dar prosseguimento ao "embate cultural" nos artigos que vai escrever,
reescrever e ler para seus iguais. Muito embora o mais provável é que nenhum "nativo" nunca mais vá conversar com ele, é isso que ele imagina que acontece -- e, inclusive, algo que tem certeza de que aconteceu. A virtude da "relativização", portanto, é o que diferencia os antropólogos do meros mortais, e o que garante sua importância: ou seja, seus departamentos.
A "observação participante", como a "relativização", é privilégio antropológico. Enquanto a primeira é algo que diferencia o pesquisador de um leigo, a segunda é "responsável pela caracterização do trabalho de campo antropológico, distinguindo-a, enquanto disciplina, de suas irmãs nas ciências sociais". Em outrs palavras, diferencia o antropólogo dos seus concorrentes mais imediatos na faculdade de ciências humanas. "Os atos de olhar e de ouvir são, a rigor, funções de um gênero de observação muito peculiar -- isto é, peculiar à antropologia -- por meio do qual o pesquisador busca interpretar -- ou compreender -- a sociedade e a cultura do outro 'de dentro', em sua verdadeira interioridade". O "estar lá" é a autoridade principal dessa idéia. A vivência (já disciplinada, por exemplo, pela "relativização") acompanha o antropólogo durante todo o processo do escrever, como memória. Ela é o elemento mais rico na produção de um texto, cuja riqueza só alcança seu maior termo quando o antropólogo já voltou da viagem, sentou no seu computador e começou a escrever, feliz da vida, o que vai dizer para seus iguais enquanto fantasia os prazeres, risos, elogios e alegrias que os próximos tempos vão lhe trazer.
Mas, como disse Cardoso, "paremos por aqui". Se houvesse sequer um cientista social honesto, umzinho só, que fosse perguntado a respeito das pessoas, suas relações, suas idéias e comportamento, em uma palavra, da vida humana -- uma coisa coletiva --, e se é que vale a pena chamar a isso conhecimento e não um outro nome qualquer, ele diria que não temos o menor motivo para aceitar que qualquer instituição se proclame responsável pela produção desse conhecimento. Que pessoas o façam melhor que outras, que tais ou tais idéias mais nos agradem, maravilha; nada mais natural. Mas que a reputação dessas pessoas anteceda seus esforços porque elas "são" isso ou aquilo, ah!, isso é algo para mim tão desprezível quanto inaceitável.
Se houvesse um cientista social honesto, ele pediria demissão.

19 Comments:
Cyrano, eu só não encaminhei meu pedido de demissão, porque eu não me considero um cientista social.
Agora, não dá para fundar um novo departamento com base numa espécie de "participação observante" e enfatizando o olfato e o paladar, ao invés de privilegiar, continuando uma tradição que já vem de longe, a visão e a audição? É que você sabe como é que é: a vida está difícil, a velhice uma hora dessas vem bater à minha porta...
você pode tentar, se tiver coragem (e, acima de tudo, saco) pra isso. eu, infelizmente, não tenho. :/
mas posso te ajudar a procurar aliados, se quiser. :)
Depois me diga os comentários do Fígoli sobre isso.
"Mas que a reputação dessas pessoas anteceda seus esforços porque elas "são" isso ou aquilo, ah!, isso é algo para mim tão desprezível quanto inaceitável"
Acho que todo bom cientista concordaria com isso. :-)
cyrano, acho que tropeçaste nas palavras, ansioso que estavas para desferir seu fel. Quando o autor fala da relativização como constituinte da "atitude epistêmica eminentemente antropológica", creio que a sua intenção não era fechar este tipo de atitude àqueles treinados na ascese científica ou coisa que o valha, muito simplesmente penso que ele quis dizer que a "atitude antropológica", ou seja, o interesse pelos fenômenos humanos nas suas mais distintas manifestações, requer um certo desprendimento (sempre limitado e artificial) em relação aos seus próprios valores: Pascal, um filósofo, disse que o que era verdade de um lado dos Pirineus, não o era do outro. A relativização não é algo acessível somente ao antropólogo, é uma atitude que pode ser assumida por qualquer um que se disponha a tal, mas para o cientista social é uma condição necessária, ainda que insuficiente, para o seu mister.
Além do mais, achar que um campo científico existe e deixa de existir exclusivamente pela decisão dos seus integrantes é algo francamente muito simplista.
Mais um ponto: da mesma forma que você apela para a honestidade, acredito que eles também o façam: acreditam que faz parte da probidade científica se isentarem de projetar seus juízos como instrumento de análise.
cyrano, para de construir bonecos cheios de defeitos para que você possa ficar apontando os defeitos que você mesmo criou!
Bonecos cheios de defeitos? O cara tá projetando todo o ego dele no que ele entende como função, importância e postura do antropólogo para as outras ciências, e eu estou criando espantalhos cheios de defeitos? Ele que tá querendo justificar o cargo dele, uai. Critiquei os espantalhos que ele fez, e se são cheios de defeitos vá reclamar com o fabricante! :P
"muito simplesmente penso que ele quis dizer que a "atitude antropológica", ou seja, o interesse pelos fenômenos humanos nas suas mais distintas manifestações, requer um certo desprendimento"
bom, então quando eu nomear uma coisa qualquer como "postura eminentemente madsenista" não me chame de arrogante, tá bem? Estarei apenas dizendo que tal postura é minha, visto que leva meu nome nela, mas todo mundo pode (aliás, seria ótimo!) usar esse nome, se quiser. Ó, sou o cara mais humilde do mundo. Ó, que altruísmo, que generosidade, eis aqui um santo! Canonizem-me, podem me canonizar, não, não resistirei à vontade dos povos, ó, quem sou eu para impedir isso...
"achar que um campo científico existe e deixa de existir exclusivamente pela decisão dos seus integrantes é algo francamente muito simplista."
Ah, é? Me dê um exemplo de um campo científico sem nenhum cientista dentro. Bem, esse suicídio coletivo não impediria que o tal campo fosse apropriado por um bando de pessoas auto-intituladas "historiadoras" algum dias mais tarde... Mas aí é outra estória. ;)
Nati:
"Acho que todo bom cientista concordaria com isso. :-)"
Bom cientista? Pra mim cientista é quem faz teoria. E quem faz teoria se julga melhor que os outros, pra ficar falando em nome deles. Aqui não, violão! Ou tá na roda (e aí tem que jogar, se te convidarem) ou então tá fora, não dê pitaco. Cientista é igual locutor de futebol, adora dar pitaco mas num joga nada. Assim não dá.
Obviamente não vou entregar isso pro Figoli. Em primeiro lugar, porque tá muito atrasado e ele tem espasmos tuberculosos quando alguém entrega trabalhos atrasados (e ñ quero correr o risco dele morrer e ser substituído pela Léa para dar a matéria); em segundo lugar, pra quê vou ficar provocando um burocrata que poderia muito bem implicar comigo e descarregar seus micropoderes-da-hierarquia-suprema em cima de mim?
Eu em. Tô fora.
Ah, a honestidade! Bem mirada, disgrama, essa eu concordo ter sido um ponto fraco. Pois bem, o trabalho do cientista social, falar dos outros, me dá preguiça. Se eu conhecer algum cientista social interessante (e não honesto, afinal, convenhamos: foda-se a honestidade), interessante para mim, que desse vontade de conhecê-lo e trocar figurinhas com ele, seria alguém que tratasse a burocracia científica com desprezo, e fizesse essa ciência do riso, como você deseja, sem se preocupar com $.
Não encontrei solução melhor. A melhor autonomia para fazer o que nos dê na telha é não precisar preocupar muito com a sustentação financeira dessas coisas. Ou seja, ser funcionário público, ongueiro, professor, cientista, garçom, ser um cretino como lhe obrigam que seja; sóbrio, mas na sua área de trabalho, e até que ache outra solução melhor. Um patife por sobrevivência, que vá buscar ares mais saudáveis no seu tempo livre, esse tempo que ainda lhe pertence. Sei que não sou o primeiro a pensar isso, e isso não faz a menor diferença. Um fragmento de meus sonhos é ter um cargo na Assembléia Legislativa e dar oficinas de pequenos furtos nos finais de semana... :)
"Bom cientista? Pra mim cientista é quem faz teoria. E quem faz teoria se julga melhor que os outros, pra ficar falando em nome deles. Aqui não, violão! Ou tá na roda (e aí tem que jogar, se te convidarem) ou então tá fora, não dê pitaco. Cientista é igual locutor de futebol, adora dar pitaco mas num joga nada. Assim não dá."
Concordo com você. Cientista é quem faz teoria.
A segunda parte: se julga melhor que os outros é por sua conta. Trata-se outra linguagem, de outras questões. outra dimensão (nem melhor, nem pior). Entrar no debate sobre "verdade" é demais para o meu estômago agora (está quase na hora do almoço, :-) ). Mas, de qualquer forma, eu não falo em nome de ninguém quando estudo participação política. Eu falo sobre, dou pitaco.. mas falar em nome de, eu não...aliás, Newton fala em nome da gravidade? Ele se considerava melhor que ela? Durkheim falava em nome dos suicidas? Weber em nome dos protestantes? E ambos se achavam melhores?
Nem toda a produção de conhecimento se refere só a interesses escusos para manter departamentos ou ainda a egos traumatizados por ter nunca ter sido escolhido na aula de educação física na escola... :-)
Um patife por sobrevivência, que vá buscar ares mais saudáveis no seu tempo livre, esse tempo que ainda lhe pertence.
Gostei disso....
"Aliás, Newton fala em nome da gravidade?"
Bem, pelo menos até onde eu sei, a gravidade nunca gritou aos quatro ventos "EU SOU IGUAL À MASSA DOS OBJETOS VEZES A ALTURA EM QUE ELES ESTÃO ELEVADO AO QUADRAAAADOOO". Você já?
"Durkheim falava em nome dos suicidas?"
Durkheim insinuava explicações de "porque" suicidas existem. "Ahr, bem, claro, longe de mim afirmar algo, mas acho que talvez quem sabe um dia considerando toda a humildade e limitação da minha simples e reles mortal opinião, julgo que há alguma possibilidade de se afirmar que os suicidas são produto da sociedade." Cara, que humildade! Estou, novamente, emocionado!
"Weber em nome dos protestantes?" Não sei, nunca li Weber. Mas ele definiu o que entende por "protestante", criou uma identidade, e essa identidade não era para ele mesmo, mas para um grupo metafísico de pessoas que viveram na europa. Se isso não é falar em nome dos outros, é delírio. E pra mim dá na mesma.
"Nem toda a produção de conhecimento se refere só a interesses escusos para manter departamentos ou ainda a egos traumatizados por ter nunca ter sido escolhido na aula de educação física na escola".
Toda a produção de conhecimento se refere a um mundarel de outras coisas. Inclusive, e muito embora os cientistas passem muito longe de admitir tamanha humanidade, demasiada humanidade, tal produção cruza direto com traumas, experiências próprias, disputas pessoais de egos, fome, tesão, e tantos outros desejos que a gente possivelmente nunca vai conseguir entender e/ou nomear.
Não se dizem melhores. Agem como se fossem.
É muito pior.
Vamos lá (estou lembrando do impertinência...)! :-)
Minha referência ao Newton foi uma tentativa de aproximação das duas práticas científicas distinguidas como naturais e humanas...antes de tudo, elas fazem ciência. As diferenças de objeto, para mim, são superestimadas.
Bem, de qualquer forma, falar em nome de, é representar, usar sua voz como a voz do outro.
Durkheim queria explicar a taxa de suicídios, não os suicidas (isso é explícito na sua introdução)...
Logo, ele queria explicar as taxas, as correntes, como produtos sociais. E ele explica um objeto contruído.
"Mas ele definiu o que entende por "protestante", criou uma identidade, e essa identidade não era para ele mesmo, mas para um grupo metafísico de pessoas que viveram na europa. Se isso não é falar em nome dos outros, é delírio. E pra mim dá na mesma"
Criou identidade? Hein? Ele criou o tipo-ideal lá dele, "metafísico" no sentido de irreal, inventado... Esse contruto dele não foi para um grupo de pessoas...foi simplesmente para o argumento dele (se o argumento fosse diferente, o contruto também o seria). Isso não é falar em nome de ninguém.
"muito embora os cientistas passem muito longe de admitir tamanha humanidade, demasiada humanidade, tal produção cruza direto com traumas, experiências próprias, disputas pessoais de egos, fome, tesão, e tantos outros desejos que a gente possivelmente nunca vai conseguir entender e/ou nomear"
Concordo que dificilmente a gente vai entender tudo que se passa na produção do conhecimento. Agora, de qualquer forma, queria conhecer esses cientistas de quem você me fala....Eles não são os que conheço, :-)
Acho que a questão nem é se produção passa por isso e aquilo, claro que passa (por tudo mesmo, a dor de barriga, a infecção urinária, as espinhas...). A pergunta, para mim, é:
Isso importa? Importa no produto, na obra científica?
Desconfio que não. Mas só desconfio.
"Isso importa? Importa no produto, na obra científica?"
Exatamente isso que eu ia dizer. Não, não importa. O que importa para a obra científica é o cientista, o que importa para o cientista é a obra científica. E as pessoas, que compõem os grupos dos quais os cientistas humanos em geral falam, ficam completamente alheias a esse falatório.
Sobre elas.
Cientistas "falam do objeto construído". Hermetismo. Não se fala das pessoas de verdade porque não é isso que importa. Porque isso sequer importa. Porque o indivíduo não é nada, o que importa é o que o cientista consegue dizer sobre o mundo, os conceitos que ele mesmo cria, seu discurso está acima dos indivíduos, dos meros mortais, o cientista é um deus e fala sobre o terreno onde ele mora, a metafísica: a "sociedade". Mas a sociedade, curiosamente, é feita de indivíduos... Ah, mas a voz deles é subjetiva, individual, reduzida; humana. Por algum motivo, a do cientista não. Por conta de "tipos ideais", "esquemas", "conceitos". Por conta de argumentos de autoridade.
O que me importa não é o que o cientista diz que faz nem como faz, mas o que eu vejo que ele faz. Comigo. Neguim vem dizer A sociedade pós-moderna é assim-assado, Né nada, cabrón, me inclui fora dessa, Não estou falando de você, estou falando da sociedade... Eis o que não é dito: "cala a sua boca". O ato é um "cala-a-boca", mas o discurso é um "quem sou eu para falar de ti, sua existência eu não consigo compreender". Pois então, se não compreende, pra quê finge? Porque? E, principalmente, com que autoridade?
A obra científica é uma grande opressão. Um monólogo. Um "senta que agora cê vai ouvir". O diálogo só é valorizado e permitido entre iniciados, amigos de departamento, companheiros de trabalho. Pessoas de um mesmo discurso, ou campo onde certos discursos se tornam possíveis. Isso, em si, não é o problema. A Radiola é a mesma coisa. Mas esse campo básico onde as conversas se tornam possíveis são pequenos, tem porteiro, segurança, vigias por todos os lados: são como campos de golf. A Radiola é outro campo, sem cercas e com outra espécie de vigias; o riso sendo o mais presente deles. É um gramadim, uma mesa, um boteco, radiola pode ser em qualquer lugar.
"Tipo-ideal" é falar em nome dos outros, fingindo que não. Qualquer cientista aprende, antes de mais nada, a fazer isso. Pseudo-concessões vazias, fragmentos de discurso que de forma alguma representam ou explicam a prática científica, muito pelo contrário, se interligam e interagem direitinho com ela, pra "fazer ciência": "Estou falando do meu mundinho, aqui ó, tipo-ideal, isso está só na minha cabeça, não existe, é *só* para meu argumento sobre o que acho que pode estar a acontecer ao mundo. Mas por favor leiam e inspirem-se nisso para fazer políticas públicas, burocracias e governos nos próximos 1000 anos, tá? E, se quiserem, me transformem em adjetivo também". Cientista fala que sabe das suas limitações porque é sensocomum no meio falar pisando em ovos. Na prática, todos ignoram, em algum momento, essas "limitações" que afirmaram a poucos parágrafos atrás... e é aí que mostram ao que vieram.
O produto, a obra científica, é objeto-símbolo dessa autoridade. Em qualquer discussão, argumente que o que está a falar foi escrito na sua tese, ou na tese de alguém. Acabou a discussão. Seu método, seus conceitos, toda a sua parafernália é mais e melhor que as outras. Em suma, calem a boca.
Podem falar, falem, critiquem. Mas usando minha linguagem, concordando que estatísticas não mentem. Não conseguem, não sabem ou não podem? Pois bem. Calem a boca.
Dinheiro público não pode ser jogado fora. Técnicos fazem melhor que um sem-diploma. Se estudou em tal lugar é mais confiável que em outro. Se tirou notas melhores, agradou mais seus chefes, tanto melhor. Fez muitos artigos, foi publicado nos meios de (auto)reputação? Ótimo! Professores respeitam e agrada-lhes a frieza de análise e a elegância da sua "postura científica"? Maravilha!
Porém cantar, sonhar, passar, ter liberdade e fibra,
Ter a vista segura, e ter a voz que vibra,
Pôr o meu feltro à banda, e — espanto dos perversos —
Por um sim por um não bater-me, ou fazer versos;
Trabalhar, sem ter fito em lucros e honrarias.
Numa excursão à lua e noutras fantasias!
Nada escrever jamais que eu mesmo não produza,
E, modesto, dizer à minha altiva musa:
"Seja do teu pomar — teu próprio — o que tu colhas
Embora fruto, flor ou simplesmente folhas".
Depois, se acaso a glória entrar pela janela,
A César não dever a mínima parcela,
Guardar para mim mesmo a gratidão mais pura;
Enfim, sem ser a hera — a parasita obscura —
Nem o carvalho e o til — gigantes do caminho —
Subir, não muito, sim, porém subir sozinho.
"Cientistas "falam do objeto construído". Hermetismo."
Hermetismo? Ok, pode ser isso para você. Mas, isso, para mim, é simplesmente o óbvio. Aliás, não é pisar em ovos, é o que acontece, na cozinha mesmo da prática científica.O argumento se modifica, a rationale muda de direção e assim também nossos brinquedos. Aliás, a origem desses brinquedos pode ser qualquer uma (um outro autor, o meu gato, meu amigo, meu blog), desde que a origem dele não seja o motivo de sua aceitação. Agora, falar que citar é usar autoridade é....., sinceramente, para mim, meter o pé na jaca.
"Mas a sociedade, curiosamente, é feita de indivíduos... Ah, mas a voz deles é subjetiva, individual, reduzida; humana. Por algum motivo, a do cientista não. Por conta de "tipos ideais", "esquemas", "conceitos". Por conta de argumentos de autoridade."
É verdade, é feita de indivíduos, mas também é feita de átomos, de células, ... o ponto em que cada um pára é arbitrário. Escolha sua parada, :-) e não tente impô-la a outros (inclusive à hegemônica ciência).
Argumentos de autoridade é um oxímoro para mim.....
"Eis o que não é dito: "cala a sua boca". O ato é um "cala-a-boca", mas o discurso é um "quem sou eu para falar de ti, sua existência eu não consigo compreender". Pois então, se não compreende, pra quê finge? Porque? E, principalmente, com que autoridade?"
Os não-ditos são muitos e muito potentes. Está certo. Aliás, muito são os modos do silêncio e a sutileza com que eles calam vozes. Muitos são os guardas, as violências e os muros (não só na universidade, como na mesa de bar da radiola- com as devidas diferenças). Todavia, isso será fruto dos cientistas? Ou ainda dos seus produtos, suas obras, que eles tão alienadamente fazem? Ou talvez essa autoridade que cala, oprime, reprime, não tenha raízes um pouco mais profundas que na profissão (e seus subprodutos) do cientista? Tentando ser clara até para eu me entender: Ok, ok, tudo isso acontece (exceto a parte que a autoridade é o motivo da vitória de um argumento - entre os cientistas - sobre o outro).
Para as portas se alargarem (elas nunca somem) e as salas se tornarem mais acolhedores a saída é muito menos por um ciência constestadora de si mesma do que por um inclusão pura e simples. Que TODOS tenham, ao menos, a possibilidade de serem iniciados e partilharem o mesmo discurso.A partir daí, cada um no seu rumo.
Os meios são obviamente, de auto-reputação, como mais eles seriam? Como mais, nesse mundo construído? Isso não significa que não seja merecidos.Nem todos silêncios são repreensíveis. Os que trazem em sia padrões, características adscritas, esses sim, são malignos.
Agora, esse troço do "mostrar para que vieram", esses homenzinhos sedentos por poder, redenção e reconhecimento... é um problema mesmo. Mas, falar em políticas públicas e Estados fundados em princípios de ciência e etc.... :-) A ciência é muito ex post para isso e os políticos muito mais inteligentes que cientistas. :-)
Estou querendo levar essa conversa para a rua da Bahia...
Hmm. Algum mal-entendido. Texto grande demais dá nisso. Tcho tentar ser mais sucinto dessa vez.
Não falei que citar é argumento de autoridade. Na verdade esse termo é ruim. A entonação, gestos, olhares, caras e bocas, e um mundarel de palavras é que são "argumentos". Citar não é citar, e pronto. Um cara cita em um contexto, numa fala, num ambiente. É aí que citar pode se tornar uma mera e livre linqania, ou um "cala-a-boca". Um simples olhar faz isso. Com os mesmos olhos que amamos. Entende? "Citar" em si não é nada, "citar em si" não existe.
O que é um oxímoro? Uma jaca?
Células não falam com seres humanos. E nós falamos. Parece que nossa única saída é falarmos entre nós mesmos. Então o átomo, a "mátéria indivisível" na questão "conhecimento" e "conversa", só pode ser o ser humano. O que não te impede de conversar com seu gatinho enquanto você cuida dele, por exemplo. Só espero que você não discuta epistemologia com ele. Coitado do gato.
Bom, eu reclamei da ciência falar em nome dos outros e você falou dos tipos-ideais, conceitos, etc. A ciência falando em nome dos conceitos, e esses conceitos se referindo aos seres humanos, à sociedade. Tucanaram a autoridade! :D
Não sei de onde você tirou que não gosto de citações. O que não gosto é dum cara falar usando o conceito sociedade, como se isso não significasse falar diretamente das pessoas. Discussão acadêmica nunca pode cair no "achismo" tipo "Olha, isso aí não serve pra mim, então tá errado". Uai, como assim?
Depois continuo. Vou almoçar e passear um pouco.
cyrano, a tal jaca que a nat falou, o oxímoro, significa "uma figura da Retórica Clássica que consiste em combinar, numa só expressão, dois termos considerados antagônicos, obtendo-se, com essa combinação inusitada, uma série de efeitos literários e expressivos: um silêncio ensurdecedor, um supérfluo essencial, boatos fidedignos, espontaneidade calculada, mentiras sinceras, crescimento negativo. O nome vem do Grego oxus, "afiado, agudo, penetrante", mais moros, "tolo, idiota", e teria sido criado pelos retóricos exatamente para designar essas expressões sutis e irônicas que parecem, à primeira vista, pura bobagem"
dito isto, por que a expressão "argumento de autoridade" é um oxímoro, nat?
uma autoridade não profere argumentos, como todos os mortais proferem, mas sim "idéias claras e distintas" e portanto verdadeiras?
talvez, se você dissesse pleonasmo, aí eu concordaria.
cyrano, qual é o teu problema: o fato de a ciência estar investida de uma autoridade com a qual não concordas? Bom, isso não diz nada sobre a própria ciência, apenas sobre a sua utilização e valoração atuais. Não devas se bater com a ciência, mas com os "instintos" que a impelem e a alçam à cabeceira da vida moderna (ou pós-moderna, sei lá).
bom, não sei se entendi errado, mas se a nati chamou "argumento de autoridade" de jaca é porque argumento e autoridade são antagônicos. Ou seja, numa discussão lógica e racional à lá descartes, apresentação e refutação contínua de hipóteses, a busca contínua da perfeição, em resumo, o mito científico, seria antagônico à autoridade como arbitrariedade, imposição, autoritarismo.
Errei?
João, todos sabemos que a ciência nasceu chamando os outros de burros. Os astrólogos, os selvagens, os não-aristocratas, analfabetos e distantes das escolas e universidades, os religiosos... Descartes xinga a academia na qual estudou, e diz que largou todos os seus preconceitos pra ouvir as pessoas. A intenção foi linda, mas ele ficou longe de descontruir tudo dentro dele mesmo. Então, respondendo sua pergunta:
o que não concordo é a autoridade que a ciência possui, mas muito além disso, os mecanismos que fazem da ciência uma coisa autoritária. Uma produção interligada de conhecimentos, de políticas públicas, de legislações, de constituições de Estados, de instituições que abrangem milhões de pessoas. Haja autoridade pra isso tudo, haja tentáculos. Nada é investido de autoridade sem possuir, ele próprio, mecanismos de reprodução dessa autoridade. E acho que os mecanismos de produção tão mais nos meus horizontes, no momento, visto que estou dentro de uma faculdade lendo teóricos há alguns anos seguidos... Fora da faculdade é fácil conversar com as pessoas a respeito do quanto tenho preguiça de técnicos donos da verdade. A maioria das pessoas concorda e tem também algo a dizer a respeito disso...
Voltando à vaca fria...
Como é que vou concordar com a nati que inclusão é o melho remédio? Isso é patético. A produção científica é autoritária, a ciência é uma autoridade, não há como mudar isso sem esvaziar toda a sala de aula. Como um discurso que nasceu do hipersupersoumaisnóis "iluminismo" pode ser diferente? Vira esoterismo, loucura, delírio, dor de cutuvelo, mal-amado, inveja, o deleuze é acusado de tudo isso. Qualquer pessoa que saia da "discussão racional", nas regras que a ciência impõe à linguagem, ao pensamento, à verbalização, ao sotaque, aos gestos e posturas, às entonações, toda essa parafernália que claramente existe (pois é fácil apontar "gafes" na apresentação de teses, na sala de aula, na escrita, a menina-dos-olhos do cientista...), enfim, qualquer pessoa que saia disso terá respostas de quem se integra nesse sistema.
Um cara outro dia falou "rádio livre pra mim é um bando de universitário carente porque o pai não reprimiu na adolescência". Infantilização, é uma palavra que vi o Guattari usando ao explicar uma das possíveis respostas de qualquer máquina de guerra àquilo que a ameaça como devir, como explosão, rebentação de suas margens. Nega-se o outro para que sua existência, sua postura, seu discurso e as coisas que ele efetivamente cria não ameacem. Não, isso não é regra em qualquer grupelho. Isso é uma resposta comum, mas comum a fluxos específicos.
depois continuamos.
Seus putos, vocês bem que podiam voltar a nutrir o Impertinência, nè? Desde que o Cyrano parou com seus desmandos lá lista que minha formação sociológica foi pras cucuias. Eu muitas vezes esqueço o endereço deste blog em algum lugar e nem em todos pcs que eu tenho acesso eu tenho cópias de meus favoritos. Por favor, eu imploro!!
sua viada
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