A Sociologia como Disciplina Humanística
Tendo em vista os últimos faniquitos do Cyrano - com os quais estou de acordo, diga-se de passagem -, senti a necessidade de tentar de alguma forma justificar o empenho que eu dispenso ao nosso curso de ciências sociais:
"Os cientistas sociais ainda se inclinam a abordar sua disciplina com soturna seriedade, invocando termos como "empíricos", "dados", "validez", ou até mesmo "fatos" [e poderíamos acrescentar "relativismo" e "observação participante" nesse rol-JI] como um pai-de-santo invocaria seus guias mais poderosos. À medida que as ciências sociais passam de sua entusiástica puberdade para uma maturidade mais moderada, pode-se esperar um grau semelhante [ao alcançado pelas ciências da natureza-JI] de distanciamento em relação ao próprio jogo...Pode-se então entender a sociologia como apenas um jogo entre muitos, importante, mas de modo algum a última palavra a respeito da vida humana, e pode-se sentir não só tolerância, como até interesse pelas diversões epistemológicas de outras pessoas.
Tal abrandamento do conceito que a sociologia faz de si mesma tem em si mesmo um significado humano. Poder-se-ia até dizer que a simples presença, numa disciplina intelectual, de um irônico ceticismo com relação às suas próprias atividades constitui marca de seu caráter humanístico. Isto é tanto mais importante para as ciências sociais, que tratam dos fenômenos peculiarmente ridículos que constituem a "comédia humana" da sociedade. Na verdade, pode-se argumentar que o cientista social que não percebe essa dimensão cômica da realidade social há de perder algumas de suas características essenciais. Não podemos entender plenamente o mundo político se não o encararmos como um jogo sujo, ou o sistema de estratificação se não percebermos seu caráter de baile de máscaras. Não se pode alcançar uma percepção sociológica das instituições religiosas a menos que se lembre como uma criança põe uma máscara e assusta seus colegas pelo simples expediente de gritar "bu". Não entenderá nenhum aspecto do erótico quem não perceber que sua qualidade fundamental é a de uma ópera bufa...E um sociólogo não poderá compreender a lei se não se recordar da jurisprudência de uma certa Rainha em "Alice no País das Maravilhas". Com essas observações, evidentemente, não queremos menoscabar o estudo sério da sociedade, mas simplesmente sugerir que a tal estudo serão de grande utilidade aquelas verdades que só percebemos ao rir.
Seria da maior conveniência que a sociologia não se fixasse numa atitude de cientificismo circunspecto, cego e surdo às palhaçadas do espetáculo social. Se agir assim, a sociologia poderá vir a adquirir uma metodologia infalível, apenas para peder o mundo dos fenômenos que se dispusera a explorar...Entretanto, embora renuncie ao cientificismo, o sociológo será capaz de descobrir valores humanos que são inerentes ao método científico, seja nas ciências sociais ou nas naturais. Tais valores são: humildade diante da imensa riqueza do mundo que se investiga, altruísmo na busca do entendimento, honestidade e precisão do método, respeito por conclusões a que se chegou honestamente, paciência e disposição de aceitar provas em contrário e de rever as teorias, e ainda comunhão com outros indivíduos que compartilham esses valores" (Peter Berger, Perspectivas Sociológicas, p. 181-183, Vozes, 1976)
Cyrano, o fragmento acima é um prato cheio para você lançar mão de suas refutações sempre perspicazes e sarcásticas, no entanto, penso que algo dele deve ser retido: encarar a sociologia como uma disciplina humanística. Esta perspectiva é alcançada quando se percebe que a sociologia é apenas uma dentre as várias maneiras de se aproximar da vida humana. Distanciamento e interesse: distanciamento com relação aos limites da abordagem sociológica e interesse pelo mundo sublunar.
"Os cientistas sociais ainda se inclinam a abordar sua disciplina com soturna seriedade, invocando termos como "empíricos", "dados", "validez", ou até mesmo "fatos" [e poderíamos acrescentar "relativismo" e "observação participante" nesse rol-JI] como um pai-de-santo invocaria seus guias mais poderosos. À medida que as ciências sociais passam de sua entusiástica puberdade para uma maturidade mais moderada, pode-se esperar um grau semelhante [ao alcançado pelas ciências da natureza-JI] de distanciamento em relação ao próprio jogo...Pode-se então entender a sociologia como apenas um jogo entre muitos, importante, mas de modo algum a última palavra a respeito da vida humana, e pode-se sentir não só tolerância, como até interesse pelas diversões epistemológicas de outras pessoas.
Tal abrandamento do conceito que a sociologia faz de si mesma tem em si mesmo um significado humano. Poder-se-ia até dizer que a simples presença, numa disciplina intelectual, de um irônico ceticismo com relação às suas próprias atividades constitui marca de seu caráter humanístico. Isto é tanto mais importante para as ciências sociais, que tratam dos fenômenos peculiarmente ridículos que constituem a "comédia humana" da sociedade. Na verdade, pode-se argumentar que o cientista social que não percebe essa dimensão cômica da realidade social há de perder algumas de suas características essenciais. Não podemos entender plenamente o mundo político se não o encararmos como um jogo sujo, ou o sistema de estratificação se não percebermos seu caráter de baile de máscaras. Não se pode alcançar uma percepção sociológica das instituições religiosas a menos que se lembre como uma criança põe uma máscara e assusta seus colegas pelo simples expediente de gritar "bu". Não entenderá nenhum aspecto do erótico quem não perceber que sua qualidade fundamental é a de uma ópera bufa...E um sociólogo não poderá compreender a lei se não se recordar da jurisprudência de uma certa Rainha em "Alice no País das Maravilhas". Com essas observações, evidentemente, não queremos menoscabar o estudo sério da sociedade, mas simplesmente sugerir que a tal estudo serão de grande utilidade aquelas verdades que só percebemos ao rir.
Seria da maior conveniência que a sociologia não se fixasse numa atitude de cientificismo circunspecto, cego e surdo às palhaçadas do espetáculo social. Se agir assim, a sociologia poderá vir a adquirir uma metodologia infalível, apenas para peder o mundo dos fenômenos que se dispusera a explorar...Entretanto, embora renuncie ao cientificismo, o sociológo será capaz de descobrir valores humanos que são inerentes ao método científico, seja nas ciências sociais ou nas naturais. Tais valores são: humildade diante da imensa riqueza do mundo que se investiga, altruísmo na busca do entendimento, honestidade e precisão do método, respeito por conclusões a que se chegou honestamente, paciência e disposição de aceitar provas em contrário e de rever as teorias, e ainda comunhão com outros indivíduos que compartilham esses valores" (Peter Berger, Perspectivas Sociológicas, p. 181-183, Vozes, 1976)
Cyrano, o fragmento acima é um prato cheio para você lançar mão de suas refutações sempre perspicazes e sarcásticas, no entanto, penso que algo dele deve ser retido: encarar a sociologia como uma disciplina humanística. Esta perspectiva é alcançada quando se percebe que a sociologia é apenas uma dentre as várias maneiras de se aproximar da vida humana. Distanciamento e interesse: distanciamento com relação aos limites da abordagem sociológica e interesse pelo mundo sublunar.

2 Comments:
ou seja, cyrano, vai para a pqp, seu antropologozinho enrustido de merda!!!
qual é a diferença entre antropologia e sociologia mesmo? (fora as salas, claro)
Tudo muito interessante. Mas porque esse Berger não vai mais longe? Depois de tudo que diz, ainda vem falar em "altruísmo", "honestidade", "respeito", "aceitar provas em contrário e rever teorias"? Isso é epistemologia ou a nova campanha ética da Daslu?! Pra quê diabos alguém, nas circunstâncias que ele mesmo imaginou, de elevar a sociologia até a altura do riso, quem afinal pensaria em ainda escrever teoria? Só um técnico mesmo. Quem se dispusesse a sociologizar rindo faria teatro, e dos bons. Mas isso não cabe dentro de um departamento.
Hehehe, sempre a solidariedade corporativa... o último dos valores citados por ele é a "comunhão com outros indivíduos que compartilham esses valores". Que cada um no seleto grupo de cientistas lamba o saco do outro, para todos viverem felizes e satisfeitos com seu trabalho de falar da vida alheia. Sem dúvidas, sem pensar pra que diabos faz isso, etc. Comovente.
Enfim, sou a favor de que se acabe com o tabu da sexualidade. Que cada um se masturbe onde (e como) bem entender. As repartições públicas, como os departamentos de ciências humanas, por exemplo, já praticam essa libertinagem há tempos.
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